agosto 18, 2004

Pergunta

Posso passar a vida a chorar por ti. A acordar com uma dor enorme. A dor da irrealidade. E chorar. Por não querer estar desperto. Acordado. Por não querer sair. Sair de mim. E perder-me em mais um dia. Perder-me num qualquer. Todos os dias. A andar por aí. À deriva.
E há tanto para ver. Para viver. E agora de repente consigo não estar triste. Por um momento não estou triste. Por um momento não penso em ti. E sou alguém. Sou eu. Sou eu na minha vida. E não na tua. Respiro dois relances de ar. E aguento-me uma ou duas horas. O suficiente para me esquecer. Agora.
É do sítio onde vivemos. É da terra que não existe. É do calor que só está lá fora. Sinto-me a passar. Sinto-me a andar nas ruas. Nas praças. Nas avenidas. Tenho um corpo que se move. E alguém que está cá dentro. A habitá-lo. Há mais?
Existem os dias. O ideal de um dia. Em que tudo se vai. Existe o fenómeno de querer parar de sentir e em simultâneo o desejo suicida de sentir para sempre. A dor. De sofrer numa continuidade infinita. Como o alimento do que existe em mim.
Há um ou outro rasgo que me leva. Para outro patamar. Onde há mais luz. Mais espera. Onde consigo sentir-me. E tactear. Formas cá dentro. A implorarem tanta liberdade.
E paz.
E toda a mudança.

Publicado por Holofernes em agosto 18, 2004 04:27 AM
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