Quando se acalmou o alvoroço dos que assistiam à reunião, Holofornes, general do exército assírio, disse a Aquior, na frente de toda a tropa estrangeira e de todos os moabitas: «Quem és tu, Aquior, e esses mercenários de Efraim, para profetizardes dessa forma, aconselhando-nos a não lutar contra os israelitas, porque o seu Deus vai protegê-los? Quem é deus, além de Nabucodonosor? Nabucodonosor enviará a sua força e exterminará os israelitas da face da terra. E o Deus deles não conseguirá salvá-los. Nós, servos de Nabucodonosor, esmagá-los-emos como se fossem um só homem. Não poderão resistir à nossa cavalaria. Nós os queimaremos de uma só vez. Os seus montes ficarão embriagados com o sangue deles, e as suas planícies transbordarão de cadáveres. Eles não poderão ficar de pé diante de nós. Todos morrerão, diz o rei Nabucodonosor, o senhor de toda a terra. Ele assim disse, e as suas palavras não serão desmentidas.
Quanto a ti, Aquior, mercenário amonita, disseste essas frases num momento de loucura. Por isso, não voltarás a ver-me até que eu castigue essa gente que escapou do Egipto. Então a espada dos meus soldados e a lança dos meus oficiais atravessarão as costelas deles, e tu cairás entre os feridos deles. Os meus servos vão levar-te para a montanha e deixar-te em alguma cidade dos desfiladeiros. Ficarás vivo para seres morto juntamente com eles. Se confias em que eles não serão capturados, não fiques de cabeça baixa. Nada do que eu disse ficará sem se realizar».
Holofernes ordenou aos servos, que estavam na tenda, para pegarem em Aquior, o levarem a Betúlia e o entregarem aos israelitas. Os servos agarraram Aquior e levaram-no para a planície, fora do acampamento. Daí dirigiram-se para a serra e chegaram às fontes que estão abaixo de Betúlia. Quando os homens da cidade os viram no alto dos montes, pegaram nas suas armas, saíram da cidade e foram para lá, enquanto os atiradores lançavam pedras sobre os homens de Holofernes, para impedir que subissem. Então estes desceram pela encosta dos montes, amarraram Aquior e deixaram-no ao pé do monte. E voltaram para junto do seu senhor.
Então os israelitas desceram da cidade e foram ter com Aquior. Desamarraram-no e levaram-no a Betúlia para o apresentarem aos chefes da cidade. Nesse tempo, os chefes eram Ozias, filho de Micas, da tribo de Simeão; Cabris, filho de Gotoniel, e Carmis, filho de Melquiel. Eles convocaram todos os anciãos da cidade. Também os jovens e as mulheres foram à assembleia. Colocaram Aquior no meio de todos, e Ozias perguntou-lhe o que havia acontecido. Então Aquior contou-lhes o que haviam dito no conselho de Holofernes, o que ele próprio tinha dito aos chefes assírios e as ameaças de Holofernes contra Israel. Então o povo prostrou-se, adorou a Deus e suplicou: «Senhor Deus do céu, olha do alto para o orgulho deles e tem piedade da humilhação da nossa gente. Acolhe hoje com boa vontade a presença daqueles que Te são consagrados». Depois, animaram Aquior e elogiaram-no muito. Ozias levou-o para sua casa e ofereceu um banquete aos anciãos. E passaram toda essa noite a invocar o auxílio do Deus de Israel.

«Judite»
Guião de Roberto Mallet representado pela companhia de teatro brasileira «Grupo Tempo» em Junho de 1993, permanecendo em cartaz durante duas temporadas na cidade de São Paulo, além de participar em diversos festivais de teatro.
A comédia é baseado no livro homónimo do Antigo Testamento.
Judite
A cena representa um terreno baldio. O palco está coberto de folhas de jornal. Alguns sacos de lixo pretos. No centro, uma velha arca. Os actores, excepto o Narrador, estão ocultos sob os papéis e sacos, distribuídos pelo espaço cénico. Batidas compassadas e lentas de um bombo. Entra o Narrador, ainda batendo o bombo. À medida que vai dizendo o texto inicial, os actores vão muito lentamente levantando-se, dando a impressão de que é o próprio terreno que se ergue para encenar a história. Todos trazem um bastão na mão.
CENA I
NARRADOR - No silêncio da noite, sob os céus iluminados da cidade de São Paulo, vi o Senhor sentado sobre um trono alto e elevado. A cauda da sua veste cobria o céu e a terra. Acima dele, em pé, estavam Serafins, cada um com seis asas. Com duas cobrias as faces, com duas cobriam os pés e com duas voavam. Eles clamavam uns para os outros: Santo, Santo, Santo, Senhor dos exércitos, o céu e a terra estão cheios da sua glória. Ao som desse brado, os gonzos das portas estremeciam, e o templo enchia-se de fumaça. Ouvi então vozes que me diziam:
POVO 1 - Ai dos que juntam casa a casa, dos que acrescentam campo a campo até que não haja mais espaço disponível, até serem eles os únicos moradores da terra.
POVO 2 - Ai dos que chamam mal ao bem, e bem ao mal.
POVO 3 - Dos que transformam as trevas em luz, e a luz em trevas.
POVO 4 - Ai dos que absolvem o ímpio mediante suborno e negam ao justo a sua justiça!
POVO 5 - Por isto o Abismo alarga a sua goela, e escancara a sua boca. Para lá descem a sua nobreza, o fausto e a festa das cidades!
POVO 6 - Palavras do profeta Isaías, nascido em Jerusalém no ano de 765 a.C. e serrado ao meio por ordem do rei Manassés.
NARRADOR - Vi depois um anjo poderoso descendo dos céus. Trajava-se com uma nuvem, e sobre a sua cabeça estava o arco-íris; seu rosto era como o sol, as pernas pareciam colunas de fogo. Pousou o pé direito sobre o mar, o esquerdo sobre a terra, e emitiu um forte grito, como um leão quando ruge. Tinha em suas mãos um pequeno livro aberto. Ele disse: "Toma e come. Ele te amargará o ventre, mas na boca será doce como o mel." Eu então comi o livro. Foi-me dito: "Vai, agora, levanta-te da miséria em que habitas, da fome e da sede que são teu pão, e conta a história do assédio que sofreu Israel nas mãos dos exércitos do grande e poderoso dragão, do velhaco Nabucodonosor.
CENA II
(Entram Nabucodonosor e Holofernes)
NABUCODONOSOR (A Holofernes) - Assim fala o grande rei, o senhor de toda a terra: general Holofernes, saindo de minha presença, tomarás contigo homens de valor comprovado, em número de cento e vinte mil infantes e uns doze mil cavalos com seus cavaleiros, e marcharás contra todos os países do ocidente, porque não submeteram-se ao meu poder. Cobrirei toda a superfície da terra com os pés do meu exército e os entregarei à pilhagem. Seus feridos encherão os abismos, e todos os rios e torrentes cheios regurgitarão com os seus cadáveres.
CENA III
(Montanha de Betúlia. Entra Mensageiro israelita.)
MENSAGEIRO - Povo de Israel, marcha sobre nós o general Holofernes, braço forte do rei Nabucodonosor, à frente de um exército numeroso como gafanhotos, incontável como o pó da terra. Ele já saqueou os filhos de Rassis e de Ismael que vivem na orla do deserto. Despedaçou a todos os que lhe resistiam, e foi até os confins meridionais de Jafé, diante da Arábia. Saqueou as cidades da planície de Damasco, devastou suas plantações e passou todos os seus jovens ao fio da espada. O temor e o tremor caíram sobre os habitantes da costa, que se prostraram diante dele, humilhando-se feito cordeiros. Ele, porém, não deixou de devastar os seus santuários e de assolar os seus bosques sagrados. Holofernes tem por missão exterminar todos os deuses da terra, a fim de que todos os povos adorem o rei Nabucodonosor, e que todas as tribos e todas as línguas invoquem-no como deus.
CENA IV
(Vale junto à montanha. Entram Holofernes e seu exército. Entre eles um soldado amonita Aquior.)
HOLOFERNES - Homens de Canaã, dizei: que povo é esse que habita nas montanhas? Qual é o número de seu exército? Aonde reside o seu poder e a sua força? Que rei o governa e é o senhor de suas tropas? E por que só eles, dentre todas as nações do ocidente, demonstraram esse desprezo, recusando-se a curvar-se perante Nabucodonosor?
AQUIOR - Escuta, pois, meu senhor Holofernes, a palavra da boca de teu servo. Esse povo é descendente dos caldeus. Primeiro emigraram para a Mesopotâmia, porque não quiseram seguir os deuses de seus pais, e passaram a adorar o Deus do céu, que reconheceram como Deus. Ali habitaram por longo tempo, e eis que o Deus deles ordenou que saíssem do estrangeiro e fossem para a terra de Canaã. Desceram em seguida para o Egito, porque uma fome se abateu sobre a terra de Canaã. Tornaram-se ali uma grande multidão, era inumerável a raça deles. Mas o rei do Egito levantou-se contra eles e enganou-os, humilhou-os e reduziu-os a escravos. Eles clamaram ao seu Deus, que feriu toda a terra do Egito com pragas. Ele secou o Mar Vermelho diante deles e conduziu-os pelo caminho do Sinai e de Cades Barne. Expulsaram todos os habitantes do deserto, atravessaram o Jordão, e expulsaram de suas vistas os cananeus, os ferezeus, os jebuzeus, os siquemitas e todos os gergeseus. O seu Deus é um Deus de mão forte. E agora, mestre e Senhor, se há algum delito nesse povo, se pecaram contra o seu Deus, ataquemos, pois sua derrota é certa. Mas se não houver injustiça entre essa gente, que meu senhor passe adiante, para que não suceda que o Senhor e Deus deles tome sua defesa, e nós nos tornemos o escárnio de toda a terra.
SOLDADO 1 - Não temeremos os israelitas.
SOLDADO 2 - é um povo sem força e sem poder, incapaz de sustentar um combate duro.
SOLDADO 3 (A Holofernes) - Vamos atacar, e eles serão pasto fácil para a voracidade de todo o teu exército.
HOLOFERNES - Quem és tu, Aquior, para vaticinar e dizer-nos para não guerrear a linhagem de Israel, porque o Deus deles os protegerá? Quem é deus afora Nabucodonosor? Nós, os servos do rei, esmagaremos esse povo como se fossem um único homem, e os seus montes ficarão embriagados com o seu sangue e suas planícies repletas de seus cadáveres. Serão inteiramente destruídos. Assim diz o grande rei, o senhor de toda a terra. Tu, porém, Aquior, mercenário amonita, a partir de hoje não verás a minha face até que eu me vingue dessa raça que saiu do Egito. Então a espada de meus soldados e a lança de meus servos atravessarão tuas costelas. Agora meus servos te conduzirão à montanha e te deixarão em uma das cidades dos desfiladeiros. Só perecerás quando fores exterminado junto com eles. Não baixes tua cabeça, Aquior, se em teu coração confias que não serão derrotados. Eu disse, e nenhuma das minhas palavras cairá por terra. (Dois soldados pegam Aquior e conduzem-no para fora.)
SOLDADO - Viva Nabucodonosor, senhor de toda a terra! (Todos respondem: - Viva!)
CENA V
(Junto à arca. Ozias, sacerdote israelita, prepara um sacrifício, cantando. Depois entram Holofernes e um general, à esquerda-baixa, observando o alto da montanha, como que ouvindo o canto do sacerdote.)
GENERAL (A Holofernes.) - Escuta, senhor nosso, uma sugestão para que não haja uma só ferida em teu exército. Esse povo dos filhos de Israel não confia em suas lanças, e sim nas alturas dos montes em que habita. Não é fácil escalar os cumes dos seus montes. Portanto, meu senhor, não combatas contra ele como se fosse em campo aberto, e não cairá um só homem do teu povo. Permanece em teu acampamento e apodera-te das fontes que manam ao pé do monte. É lá que eles vão haurir água. Eles estão cercados. Serão consumidos pela sede e pela fome, e antes mesmo que os alcance tua espada, cairão pelas ruas da cidade. (Saem. O sacerdote Ozias acaba de acender um fogo sobre a arca/altar. Abre uma grande folha de jornal, como um rolo de pergaminho.)
OZIAS - Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Portanto, amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força. Não adorarás outros deuses, qualquer um dos deuses dos povos que vivem ao teu redor. Eles adoram a ciência, o poder, o dinheiro, o prazer, como se fossem deuses, regentes do mundo. Por toda a parte há sangue e mentira, roubo e fraude, corrupção, deslealdade, revolta, perjúrio, perseguição dos bons e traição. Não te curvarás perante seus deuses, pois o Senhor teu Deus é um Deus ciumento, e está no meio de ti.
NARRADOR - Cinco mil assírios penetram no vale e ocupam os canais e as fontes de água dos israelitas. O resto do exército toma posição na planície e cobre toda a região. Os filhos de Israel rasgam suas vestes, cobrem-se de cinzas e clamam ao Senhor seu Deus. Eles estão cercados por seus inimigos, e não há como fugir deles. Todo o acampamento assírio, os infantes, os carros, os cavaleiros, permanecem ao redor deles por trinta e quatro dias. Esgotam-se para os habitantes de Betúlia todas as vasilhas de água, e as cisternas ficam vazias. As crianças desmaiam, as mulheres e os adolescentes desfalecem de fome e de sede, caem sem forças pelas praças das cidades, pelas sarjetas e pelas soleiras das portas.
POVO 1 - Há trinta e quatro dias estamos cercados.
POVO 2 - Já se esvaziaram todas as nossas cisternas.
POVO 3 - Não temos mais água para matar nossa sede.
POVO 4 - Deus seja juiz entre nós e vós pelo grande dano que nos causastes não conversando pacificamente com os assírios.
POVO 5 - Agora já não há socorro para nós.
POVO 1 - Deus nos entregou nas suas mãos, para que caiamos diante deles pela sede, na completa destruição.
POVO 3 - Chamai-os. Entregai toda a cidade ao saque do povo de Holofernes e de todo o seu exército.
OZIAS - Confiança, irmãos, resistamos ainda por cinco dias, nos quais o Senhor nosso Deus volverá a sua misericórdia para nós, pois ele não nos abandonará para sempre.
POVO 5 - é melhor para nós sermos presa da pilhagem deles. Ainda que reduzidos a escravos, ao menos viveremos, e não veremos com nossos olhos a morte de nossas crianças e nossas mulheres e filhos exalando a alma.
POVO 4 - Chamamos por testemunhas contra vós o céu e a terra, o nosso Deus e Senhor de nossos pais, para que ajas conforme essas palavras hoje mesmo.
OZIAS - Se, passados esses cinco dias, Deus não vier em nosso socorro, então farei conforme a vossa palavra.
JUDITE (Entrando. Usa um véu de tule negro.) - Ouvi-me, sacerdotes do Deus de Israel. Não são justas as palavras que dissestes hoje diante do povo, nem esse juramento que proferistes entre Deus e nós, dizendo que entregareis a cidade aos nossos inimigos se dentro desses cinco dias o Senhor não vier em vosso auxílio. Quem sois vós, que hoje tentais a Deus e vos colocais acima dele no meio dos filhos dos homens? Agora colocais à prova o Senhor todo-poderoso? Jamais o compreendereis. Se não conseguis alcançar o íntimo do coração do homem e nem surpreender os pensamentos de sua mente, como, então, penetrareis o Deus que fez essas coisas? Como conhecereis o seu pensamento? Como compreendereis seus desígnios? Não provoqueis a ira de nosso Deus. Se nesses cinco dias não quiser nos socorrer, tem poder para nos servir de escudo quantos dias lhe aprouver, como também o tem para nos exterminar diante dos nossos inimigos. Não se encurrala a Deus como a um homem, nem se pode submetê-lo como a um filho de homem. Não se levantou em nossos tempo nem existe no dia de hoje, entre nós, tribo, família, aldeia ou cidade que adore deuses feitos pela mão do homem. Nós não conhecemos outro Deus além dele. Por isso, confiamos que não nos olhará com desdém, nem se afastará da nossa raça.
OZIAS - Tudo o que disseste, disseste com nobre intenção, e não há quem contradiga tuas palavras. Não é a primeira vez que tua sabedoria se manifesta. Desde o princípio de teus dias todo o povo conheceu a tua inteligência, e a natural bondade de teu coração. Mas o povo, acossado pela forte sede, forçou-nos a fazer como dissemos, comprometendo-nos com um juramento que não poderá ser quebrado. Roga por nós tu, que és mulher piedosa, e pede que o Senhor nos envie uma forte chuva para encher nossas cisternas, e não mais desfaleceremos.
JUDITE - Escutai-me bem: farei algo cuja lembrança se transmitirá de geração em geração entre os filhos da nossa raça. Sairei com minha serva e, antes da data em que dissestes que entregaríeis a cidade, o Senhor, por minha mão, visitará Israel. Quanto a vós, não pergunteis o que vou fazer. Não vos direi. Sabereis a seu tempo.
OZIAS - Vai em paz! Que o Senhor Deus esteja diante de ti para a vingança dos nossos inimigos.
CENA VI
NARRADOR - Israel gerou Surisadai, Surisadai gerou Salamiel, Salamiel gerou Natanael, Natanael gerou Eliab, Eliab gerou Helcias, Helcias gerou Elias, Elias gerou Aquitob, Aquitob gerou Rafain, Rafain gerou Gedeão, Gedeão gerou Ananias, Ananias gerou Elquias, Elquias gerou Oziel, Oziel gerou José, José gerou Ox, Ox gerou Merari, que gerou Judite.
JUDITE (Atrás da arca, reza.) - Senhor dos exércitos, Deus de Israel, inclina teus ouvidos e ouve esta pobre viúva. Tu és o único Deus de todos os reinos da terra; tu criaste o céu e a terra. Vede os assírios: devastaram todas as nações e lançaram os seus deuses ao fogo, porque não eram deuses, mas obra das mãos dos homens, madeira e pedra. E agora querem profanar o teu santuário, manchar a tenda onde repousa teu Nome glorioso. Envia tua cólera sobre as suas cabeças, e dá à minha mão de viúva o ímpeto que pensei. Dá palavra e astúcia aos meus lábios. Quebra a arrogância desse povo pela mão de uma mulher. (Entra a serva de Judite e auxilia-a a ataviar-se. Judite coloca seu véu sobre os ombros, utilizando-o como um xaile. As duas vão saindo, enquanto se ouve o canto do sacerdote Ozias.)
CENA VII
(Vale.)
NARRADOR - No segundo ano do seu reinado, Nabucodonosor teve sonhos que lhe perturbaram o espírito. Sonhava com uma estátua enorme e extraordinariamente brilhante. Seu aspecto era terrível. A cabeça de ouro fino, seu peito e seus braços de prata, seu ventre e seus quadris de bronze, suas coxas de ferro e seus pés parte de ferro e parte de barro. Uma pedra, sem intervenção de mão alguma, desprende-se da montanha e atinge a estátua em seus pés de ferro e argila e os pulveriza. Então o ferro, o barro, o bronze, a prata e o ouro pulverizam-se num instante, como a palha miúda das eiras do verão, e são arrebatados pelo vento, sem deixarem traço algum. Mas a pedra que atingiu a estátua transformou-se numa grande montanha, que ocupa a terra inteira.
(Ilumina-se a cena sobre a tenda de Holofernes, onde acontece um banquete. Servas e o eunuco Bagoas. As servas massageiam Holofernes, que come e bebe vinho. Sugere-se uma orgia. Depois chegam Judite e sua serva.)
BAGOAS (A Judite.) - Quem és tu, mulher? De que nação és? De onde vens?
JUDITE - Sou filha dos hebreus. Fugi da presença deles porque estão para ser entregues a vós como pasto. Venho apresentar-me a Holofernes, chefe do vosso exército, para dar-lhe notícias seguras. Mostrarei a ele o caminho para apoderar-se de toda a região montanhosa, sem que perca um só de seus homens.
BAGOAS - Salvaste tua vida apressando-te em vir à presença de nosso Senhor. E quando estiveres diante dele, não temas em teu coração, mas informa-o conforme o que dissestes, que serás bem acolhida. (Judite avança e, juntamente com a serva, prostra-se diante de Holofernes.)
HOLOFERNES - Confia, mulher, não temas em teu coração. Jamais maltratei alguém que escolheu servir a Nabucodonosor, rei de toda a terra. Se teu povo não houvesse me desprezado, não levantaria a lança contra ele. Agora dize-me porque fugiste. Confia! Viverás!
JUDITE - Acolhe as palavras de tua serva, e possa eu falar na tua presença. Se seguires os meus conselhos, Deus levará a bom termo essa empresa e o meu senhor não fracassará em seus planos. Viva Nabucodonosor, rei de toda a terra, que te enviou para que não só os homens o sirvam, mas também as feras do campo, os rebanhos e os pássaros do céu vivam para Nabucodonosor e para toda sua dinastia! Ouvimos falar de tua sabedoria e de teu espírito sagaz. Foi anunciado em toda a terra que, em todo teu reino, só tu és bom, poderoso por tua ciência e admirável pelas campanhas militares. Conhecemos o discurso que fez Aquior no teu Conselho. Os homens de Betúlia o pouparam, e ele contou-lhes tudo o que disse diante de ti. Não desprezes a sua palavra, mas deposita-a em teu coração, porque é verdadeira. Certamente nosso povo não será punido nem a espada prevalecerá sobre ele se não houver pecado contra o seu Deus. Pois bem; quando se esgotaram as provisões e escasseou a água, resolveram lançar mão de seu rebanho e decidiram alimentar-se de tudo o que Deus havia determinado que não comessem. Enviaram mensageiros a Jerusalém para obter o consentimento do Conselho de Anciãos. Tão logo recebam a permissão e a executem, serão entregues a ti. Por isso fugi do meio deles. Deus enviou-me para realizar contigo coisas com as quais toda a terra se assombrará. Porque tua serva é piedosa e serve, noite e dia, ao Deus do céu. Durante todo o tempo que permanecer junto de ti, meu senhor, sairei toda noite à escarpa para rezar, e Deus me dirá quando consumarem o pecado. E eu então te comunicarei. Não haverá entre eles quem te resista. Te conduzirei através de toda a Judéia até chegar diante de Jerusalém. E colocarei teu trono no meio dela. Então, conduzirás a todos, como ovelhas que não têm pastor, e não restará sequer um só cão para rosnar diante de ti. Essas coisas me foram ditas previamente, foram-me anunciadas e eu fui enviada para revelá-las a ti.
HOLOFERNES - Bem fez o teu Deus ao enviar-te na frente do teu povo. Em nossas mãos estará o poder, e entre aqueles que desprezaram o meu senhor, o extermínio. E tu, que és bela de aspecto e hábil em tuas palavras, se fizeres conforme disseste, o teu Deus será o meu Deus, e te sentarás no palácio de Nabucodonosor e tua fama se espalhará por toda a terra. (A seus servos.) Preparem uma mesa farta para essa mulher e tragam mais vinho!
JUDITE - Não comerei desses manjares para que não surja disso algum tropeço. Me servirei do que trouxe comigo.
HOLOFERNES - E quando acabar o que tens, onde encontraremos coisa semelhante para te dar? Entre nós não há ninguém da tua raça.
JUDITE - Pela tua vida, meu senhor, antes de acabar o que tenho comigo o Senhor fará por minhas mãos o que decidiu.
HOLOFERNES (Aos servos.) - Levem-na para a tenda para que descanse.
CENA VIII
NARRADOR - Judite dorme até a meia-noite. Quando chega a vigília da manhã, manda dizer a Holofernes: "Digne-se meu senhor ordenar que se permita a tua serva sair para a oração." Holofernes ordena a seus guardas que não lhe imponham obstáculo. Ela permanece três dias no acampamento. Todas as noites sai em direção à escarpa e banha-se na fonte, no posto avançado. Depois do banho, pede ao Senhor Deus de Israel que dirija os seus passos para o reerguimento dos filhos do seu povo. Assim purificada, volta e permanece em sua tenda até o cair da tarde.
HOLOFERNES (Em sua tenda. Bebe vinho. Está ligeiramente bêbado. Chama:) - Bagoas! (Bagoas entra.) Vai e convence a mulher hebréia a vir até nós, para comer e beber conosco. Seria vergonhoso deixarmos que essa mulher vá embora sem ter gozado de sua presença. Se não a seduzirmos, zombarão de nós! (Bagoas sai. Retorna seguido por Judite e sua serva. Holofernes fala a Judite:) Bebe e alegra-te conosco.
JUDITE - Beberei sim, meu senhor, porque nunca, desde o dia em que nasci, apreciei tanto a vida como hoje.
HOLOFERNES (A Bagoas.) - Que todos os homens se recolham a suas tendas, e que ninguém se atreva a me importunar. (A serva dispõe uma pequena mesa para Judite.)
JUDITE (A Holofernes.) - Minha serva ficará do lado de fora da tenda, aguardando a hora em que iremos à escarpa rezar.
HOLOFERNES (A Bagoas.) - Cuide para que ninguém lhe coloque obstáculo. Talvez hoje o seu Deus nos traga boas notícias. (Saem Bagoas e serva. Holofernes e Judite ficam sozinhos. Jogo de sedução entre os dois. Ela canta e conduz aos poucos Holofernes à arca, onde o deita. Acalanta-o, até que ele adormece. Ela pega rapidamente sua lança e corta-lhe a cabeça. Entra a serva. Recolhem com presteza as suas coisas e saem. Judite volta a cobrir-se com seu véu. Saem as duas. Foco no corpo de Holofernes. Em silêncio, entram Narrador e povo.)
F I M
[http://www.grupotempo.com.br/tex_judite.html]
Holofernes, general do exército assírio, foi informado de que os israelitas se estavam a preparar para a guerra. Contaram-lhe que eles tinham fechado as passagens das montanhas, fortificado o cimo dos montes mais altos e preparado obstáculos nas planícies. Holofernes ficou enfurecido e convocou todos os chefes moabitas, generais amonitas, governadores do litoral, e perguntou-lhes: «Cananeus, dizei-me: Que gente é essa que vive na serra? Em que cidades moram? Qual é a potência do seu exército? Em que ponto está o seu poder e a sua força? Que rei os governa? Porque não se dignaram vir ao meu encontro, como fizeram todos os povos do Ocidente?»
Aquior, chefe de todos os amonitas, respondeu: «Escuta, meu senhor, o que este teu servo vai dizer. Vou contar-te a verdade sobre este povo que vive na serra, aqui perto. Não direi mentiras. Esse povo é descendente dos caldeus. Primeiro estiveram na Mesopotâmia, porque não quiseram seguir os deuses dos seus antepassados, que viviam na Caldeia. Abandonaram a religião dos seus antepassados e adoraram o Deus do céu, que reconheceram como Deus. Os caldeus, porém, expulsaram-nos da presença dos seus deuses, e tiveram que fugir para a Mesopotâmia, onde ficaram durante longo tempo. O Deus deles ordenou que saíssem de lá e fossem para a terra de Canaã. Instalaram-se lá e ficaram muito ricos em ouro, prata e rebanhos numerosos. Em seguida, foram para o Egipto por causa de uma fome que atingia o país de Canaã. E lá ficaram enquanto havia alimento. No Egipto, multiplicaram-se muito e transformaram-se num povo numeroso. O rei do Egipto, porém, esteve contra eles e explorou-os no trabalho de preparar tijolos, e eles foram humilhados e tratados como escravos. Então clamaram ao seu Deus, e Este castigou todo o país do Egipto com pragas incuráveis. Os egípcios, então, expulsaram-nos do país. Deus secou diante deles o Mar Vermelho e conduziu-os pelo caminho do Sinai e de Cades Barne. Eles expulsaram todos os habitantes do deserto, instalaram-se na terra dos amorreus, e exterminaram pela força todos os habitantes de Hesebon. Depois atravessaram o Jordão, tomaram posse de toda a serra, expulsaram os cananeus, ferezeus, jebuseus, siquemitas e todos os gergeseus, e viveram lá durante muito tempo. Enquanto não pecaram contra o seu Deus, a prosperidade estava com eles, porque o seu Deus odeia a injustiça. Mas quando se afastaram do caminho que Deus lhes havia marcado, uma parte deles foi completamente exterminada em guerras, e a outra foi exilada para um país estrangeiro. O Templo do seu Deus foi arrasado e as suas cidades foram conquistadas pelos adversários. Mas agora eles voltaram para o seu Deus, regressaram da dispersão, ocuparam Jerusalém, onde está o seu Templo, e repovoaram a serra que tinha ficado deserta. Agora, meu soberano e senhor, se essa gente se desviou, pecando contra o seu Deus, comprovemos essa falta, e subamos para os atacar. Contudo, se eles não tiverem pecado, é melhor que os deixes em paz. Caso contrário, o seu Senhor e Deus vai protegê-los, e nós ficaremos envergonhados diante de todo o mundo».
Quando Aquior acabou de falar, todos os que estavam ao redor da tenda protestaram. Os oficiais de Holofernes, os habitantes do litoral e os moabitas queriam matar Aquior. E diziam: «Não vamos ficar com medo dos israelitas. É um povo sem exército e sem forças para aguentar um combate duro. Por isso, vamos lá. Serão presa fácil para todo o teu exército, senhor Holofernes».