Posso passar a vida a chorar por ti. A acordar com uma dor enorme. A dor da irrealidade. E chorar. Por não querer estar desperto. Acordado. Por não querer sair. Sair de mim. E perder-me em mais um dia. Perder-me num qualquer. Todos os dias. A andar por aí. À deriva.
E há tanto para ver. Para viver. E agora de repente consigo não estar triste. Por um momento não estou triste. Por um momento não penso em ti. E sou alguém. Sou eu. Sou eu na minha vida. E não na tua. Respiro dois relances de ar. E aguento-me uma ou duas horas. O suficiente para me esquecer. Agora.
É do sítio onde vivemos. É da terra que não existe. É do calor que só está lá fora. Sinto-me a passar. Sinto-me a andar nas ruas. Nas praças. Nas avenidas. Tenho um corpo que se move. E alguém que está cá dentro. A habitá-lo. Há mais?
Existem os dias. O ideal de um dia. Em que tudo se vai. Existe o fenómeno de querer parar de sentir e em simultâneo o desejo suicida de sentir para sempre. A dor. De sofrer numa continuidade infinita. Como o alimento do que existe em mim.
Há um ou outro rasgo que me leva. Para outro patamar. Onde há mais luz. Mais espera. Onde consigo sentir-me. E tactear. Formas cá dentro. A implorarem tanta liberdade.
E paz.
E toda a mudança.
Fui comprar mantimentos. A tremer. Para me ir embora. É só uma viagem. Saio pela fronteira terrestre e apanho um comboio. O primeiro que disser para longe. Muito. Tenho tudo. Um saco para me vestir, outro para me alimentar. Uma lâmina de barbear. Pouco mais. As cartas escritas em cima da mesa. A explicar a quem precisa de explicação. E desapareço. Para lá da minha visibilidade. Para montanhas distantes. Onde não há ninguém que chega. Do passado. Onde tudo é belo. Onde há ar. E tempo limpo. Tempo sem horas. Sem dias.
Volto. Porque tenho que voltar. Um dia.
Estava tão furioso. Tão desesperado. Desde a manhã. Que não tenho mesmo outra saída.